| 
Anno
2000.
A
população do Brasil attingiu 200 milhões
de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas
actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao
aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente,
medrosamente, a principio, essa utilização de
energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000
já estão longe os tempos em que ainda se importavam
carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados
pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando
a constituir apenas uma recordação historica.
Os
50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica,
utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho
mecanico de 600 milhões de homens, a população
brasileira, do ponto de vista energetico, é então
computavel em 800 milhões. Nessas condições,
não admira que sejam enfrentados e convenientemente
resolvidos os problemas da producção. As questões
nacionaes são, então, estudadas por gente competente,
tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes.
A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente
aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser
travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é
que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e
dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados,
de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos
em que nem havia Universidade no Brasil, a nao ser umas instituições
de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino
profissional, e onde a pesquisa scientifica não se
podia fazer!
Todas
as actividades industriaes foram avassaladas pela energia
electrica. São as industrias electro-chimicas, num
desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia;
é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram,
por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação
da energia.
Lembram-se
todos como começou a ser resolvida essa questão.
Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia.
Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e
os motores electricos com energia irradiada se installaram
em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos,
navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde
a energia se faz precisa. O problema da distribuição
da energia passou, desde então, a ser uma questão
definitivamente resolvida.
Transformara-se,
com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente,
uma aspiração á maior somma de poder,
numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser
vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia,
com a nova forma de distribuição de energia
passara a ser uma luta pela posse da energia electrica. A
importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação
pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É
assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus
190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em
2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America
do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e
a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor
hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil. A Europa,
com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás
de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia
agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de
energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do
carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica.
Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara
a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram
a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes
do mundo.
Ainda
ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe,
affirmando que o que interessa não é poder ser
enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos,
mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente
humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente.
Melhor? Peor? - É difficil sabe-lo. Mas, seguramente,
é differente.
É
a era da electricidade.
A
differença entre a vida de então e a dos anteriores
é alguma coisa como a differença hoje existente
entre a vida dss grandes cidades e a do campo. O ambiente
é outro. Outra é a organização
da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro,
liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe
a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz
solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos.
A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos,
deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam
para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente
mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas.
O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são
outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente,
as differenças se vão accentuando.
As
viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que,
sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da
Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou
radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair
para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se
tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais
necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é
só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer
museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem
ser transportados.
Na
era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio,
retirado das argilas pela energia electrica. O aluminio supplantou,
com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel,
e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel.
De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio
que se escreve.
A
era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo
emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia
luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica:
tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece
ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se
movimenta pela electricidade.
Servindo
para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O
ouro e as suas representações são formas
obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é,
tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts.
Paga-se o trabalho en kilowatts.
A
revolução trazida é principalmente nos
habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha
ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas,
remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia;
e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É
verdade que não ha mais fome, desde a adopção
do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras
de energia. Mas as questões sociaes continuam.
Muitos
pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado.
Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas
geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão
a proposito da regularização do clima. Uma vez
reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas
pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes
a condensação, pareceu a muitos que se deveriam
ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo,
servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só
haveria vantagens nisso.
Objectam,
porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente,
especial. Da mesma forma, o da distribuição
das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades,
para beneficio geral. A Repartição das Chuvas,
dispondo de todo o serviço official de estatistica,
e em connexão com os demais repartições
do Ministerio da Agricultura, é uma organização
que se resolveu dever ser do Estado. Ampliar, porém,
ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização
progressiva de todas as actividades, não merece as
sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens
e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados
a um serviço diario de 2 horas. Breve serão
3 horas. Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se
contra as idéias de socialização os velhos
principios da liberdade individual. A questão está,
assim, longe de ser resolvida
. . . . .
Sonho?
- Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã,
realidade. Sabe-se lá até onde nos levará
a evolução que hoje se processa tão acceleradamente?
Como será a vida no anno 2000? |