Por
onde anda Cascudo?
Natal
é uma cidade que guarda surpresas. Voltar
aqui, de tempos em tempos, é certeza de
encontrar mudanças, de percebê-las
mais do que quem convive com elas. Cada vez mais
prédios aparecem, os empreendimentos ficam
maiores, surgem novas perspectivas... A cidade
apresenta seu desenvolvimento. Lento, desordenado,
mas ainda assim um desenvolvimento.
Outras
coisas não mudam. O céu sempre muito
azul, o vento amenizando o calor do sol sempre
presente, a gentileza das pessoas, o jeito de
cidade pequena. As polêmicas nas questões
culturais também não mudam. O corporativismo
provinciano que não aceita o profissionalismo,
os investimentos que não aparecem, as idéias
que não saem do papel, as reestruturações
necessárias que nunca são feitas.
Mas
quero concentrar a atenção em um
fato que, há menos de dois meses, foi manchete
de todos os jornais locais, que causou indignação,
que nos atingiu em nosso orgulho intelectual,
turístico e mesmo familiar, como se tivessem
invadido nossa casa e atentado contra um parente
próximo: a tentativa de roubo da estátua
de Câmara Cascudo.
Ato
frustrado. Os cerca de 120 quilos vieram ao chão
e alertaram o vigia. Cascudo, merecendo este nome
mais do que nunca, saiu sem um arranhão
em sua carapaça de bronze. Porém
não voltou mais ao seu lugar. Está
solitário, amedrontado, escondido dentro
do Memorial que leva seu nome, longe do povo de
que tanto estudou os costumes.
A
pergunta é simples: por que a estátua
ainda não foi devolvida ao restante do
monumento? Eu mesmo vi turistas perguntando o
que significava aquela mão aberta. Minha
vontade foi de explicar que ela – a mão
– esmolava a atenção dos responsáveis
pelo patrimônio público. Estendia-se
num gesto humilde, pedindo “uma ajudinha
pelo amor de Deus” para a personalidade
mais conhecida da História do Rio Grande
do Norte.
Até
onde eu saiba, o acervo do Memorial pertence à
família Cascudo, mas sua conservação,
pelo menos a dos livros, é de responsabilidade
da Fundação José Augusto,
braço cultural do Governo do Estado. Aliás,
conservação que ficou só
no intento, em um acordo assinado há quase
década e meia. Quem vem fazendo a conservação
e restauração dos livros é
a família com recursos próprios.
Esta alternativa poderia aplicar-se à estátua,
já que o genro do quase-seqüestrado
é engenheiro civil, responsável
por belos prédios erguidos na cidade e
que devolveria Cascudo à mão do
povo sem grande esforço. Mas, particularmente,
em seu lugar, eu não faria isso. Se roubam
– e para isto basta querer –, vão
dizer, injustamente, que a culpa foi dele, que
não fez o serviço direito. E não
vai ter quem tire tal mácula de carreira
tão brilhante.
A
estátua é um patrimônio público.
Está em praça pública. É
responsabilidade da administração
pública. Prefeitura? Governo? Secretarias
de Patrimônio, de Cultura, de Turismo...
Tem – ou deveria ter – gente de sobra
responsável e interessada em devolver a
estátua ao seu local. Será que pretendem
fazer o mesmo que fizeram com a Coluna Capitolina,
que ficou anos e anos jogada no Baldo e depois
foi colocada em praça fechada junto ao
Instituto Histórico e Geográfico?
A perspectiva de ver, daqui a sabe-se lá
quantos anos, Cascudo enjaulado em frente ao Memorial
parece-me assustadora.
Enquanto
se decide – ou nem se discute – quem
deve efetuar a difícil tarefa de devolver
a estátua ao seu lugar, Cascudo passa a
data de seu aniversário de 105 anos –
hoje, 30 de dezembro –, a olhar aquela mão
gigante, vazia, de pedinte, sem pires e sem esmola,
esperando que ele volte. Até lá,
estudantes, pesquisadores e turistas não
verão o monumento ao mais conhecido intelectual
do Estado. E se quiserem vê-lo, terão
que visitá-lo nos horários em que
o Memorial estiver aberto. Às segundas
ou depois das 17 horas, como diria o Mestre, terão
que baixar em outro terreiro.
Sandro
Fortunato é jornalista e editor
do site Memória Viva
Artigo originalmente publicado
na edição de 30 de dezembro de 2003
no Diário de Natal