Xumbregar

Natalense curioso envia-me afetuosa carta perguntando origem do vocábulo Xumbregar, e decorrentes Xumbregado, etc.

Diz-me ser sinônimo de embriagado, bêbado, e também dado às práticas libidinosas. Essas intimidades que se tornam públicas nos jardins e praças da cidade do Natal logo que a noite cai é Xumbregamento. Rapaz e moça estão Xumbregando.

Natalense curioso quer saber de onde nos veio tal nome.

Veio de um nobre alemão, soldado de fortuna, Armando Frederico von Schomberg, 1615-1690, Conde por nascimento e Duque de Schomberg pelo Rei da Inglaterra, Guilherme III. Antes se batera pela França contra a Espanha e em 1675 era Marechal de França, nomeação de Luís XIV.

Portugal reconquistara sua independência, aclamando o Duque de Bragança como seu soberano natural. D. João IV e Luís XIV mandou Schomberg em 1660 organizar o exército português para enfrentar o espanhol.

Armando Frederico von Schomberg era forte e airoso, vestindo-se com aparato e tendo vida de grão-senhor. Foi o espelho, modelo, árbitro das elegâncias no seu tempo.

Usava um tipo de bigodes que lhe tomou o nome, bigodes de guias voltadas para o alto e em vez de afiadas, tufadas e grossas. A forma de por o chapéu também determinou imitadores. Dizia-se A Chomberga adverbialmente, referindo-se ao uso do Marechal de Schomberg. Esse era Marechal de Campo desde 1652.

Os bigodes à Schomberg vieram até fins do século XVIII ou começo do XIX. E também casinhas que lhe mandara fazer para alojar seus criados foram Casas à Schomberg.

Apenas o português escrevia Chomberga e Xumbrega em vez de Schomberg. O Padre Antonio Vieira escrevia Xumberg.

De março de 1664 a julho de 1666, Pernambuco foi governado por Jerônimo Furtado de Mendonça, grande imitador de Schomberg e apelidado, desde Portugal, Xumbregas. Esse Jerônimo foi preso e deposto pelos pernambucanos que o odiavam.

Nesse tempo houve uma epidemia de bexigas em Olinda e Recife e o povo batizou a peste de Xumbergas em honra ao malavisado governador.

O Conde de Schomberg devia, pelos seus hábitos de boa vida, gostar dos prazeres da mesa e do sexo, como bom soldado e batalhador profissional. Havia de morrer em combate, de espada na mão, em Boyne, na Irlanda, defendendo a coroa do seu amigo Guilherme III.

O vocábulo virá dessa fonte, reminiscências de Armando Frederico von Schomberg que passou a ser Xumbergas e Xumbregas, suas predileções e amavios, com projeção na mania repetidora dos amigos e admiradores fervorosos.

Naturalmente aqueles que hoje Xumbregam jamais recordarão a paternidade para a denominação do ato licencioso e sensual. E menos os amantes do corpo, taça e cálice, pensarão no fidalgo alemão, Marechal de França, Duque pela Inglaterra, organizador do exército de Portugal na campanha da Independência, como padrinho do vocábulo Xumbregado.

Tal é o que posso responder ao Natalense curioso.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 17 de Novembro de 1959

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