Essa estória está no TORAH, numa das edições que conheço. É lição de sabedoria israelita que muito pouca gente, judia e cristã, compreende e segue nos dias rápidos do mundo.
Uma raposa andava procurando almoço quando encontrou um grande e alto muro. Rodeou-o, farejando e deparou um buraco por onde avistou o paraíso do estômago e boca. Árvores de frutos semeando o solo de peças maduras, animais de fácil presa, soltos, passeando, ao alcance de uma dentada técnica, mil coisas para comer e viver, tudo pertinho, sem complicação, perto do dente.
A raposa pulou e repulou, mas descobriu que jamais passaria pela abertura da muralha com o corpo que tinha. Era gorda demais. O buraco era pequeno. Para atravessar seria indispensável emagrecer tanto que possibilitasse a passagem.
Ficou então jejuando, jejuando, língua de fora, ficando magra, para passar pelo muro e engordar do lado de dentro.
Dias depois tentou passar e passou. Estava tão magrinha que a abertura ficara larga para ela.
Entrou então a regalar-se, comendo de tudo, deliciando-se. E também engordando, engordando, rapidamente.
Tempos depois achou que devia livrar-se dos perigos daquele pomar misterioso. Podia o proprietário aparecer com uma boa vara e a surra estaria muito cara para os repastos saboreados.
Tentou repassar para a estrada, mas não conseguiu. Estava muito gorda. Forcejou. Debalde feriu as patas no esforço da escápula. Não podia reganhar a outra paisagem. Só lhe restava o remédio amargo de conseguir o antigo peso pluma, não comer e perder as banhas até o diâmetro antigo.
E ficou jejuando, jejuando, emagrecendo, emagrecendo.
Alcançou o antigo e esquecido peso velho e facilmente passou pela abertura e voltou aos caminhos velhos, com liberdade e fome tradicionais.
Só então é que a Raposa pensou no papel humano que fizera. Para entrar, passara fome. Engordara no pomar, mas perdera todas as vantagens para poder sair. Tivera de passar fome novamente para libertar-se.
Estava com o mesmo peso e a mesma fome anteriores. Não valia o sacrifício tal inutilidade física e tais renúncias morais. Melhor seria a dieta comum, parca e constante, sem dias de jejuns intercalando horas de farturas. A Raposa ficou meio envergonhada. Até aqui é a estória do TORAH. Se houver alguma semelhança é mera coincidência.
Diário de Natal, 06 de abril de 1949