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Presença da Jangada 0

Em 1957 (Serviço de Documentação do Ministério da Educação) foi publicada uma minha pesquisa etnográfica sobre Jangada, destinada a Societé D’Etudes Historiques Dom Pedro II. Era a primeira tentativa de estudos completo.

Carlos Galvão Krebs conheceu Thor Heyrdahl em S. Paulo e o navegador da Kon Tiki nunca vira uma jangada na sua vida e ignorava admiravelmente a existência de mais de 2.000 embarcações no Atlântico nordestino do Brasil. Agora, com a conversa de Krebs e a minha Jangada, Heyrdahl sabe que elas pescam, normalmente, numa região marítima do mundo e não estão mortas.

Nesse outubro de 1959 realiza-se em Porto Alegre o Campeonato Mundial de Snipes. Dezesseis nações representadas e os nomes famosos, ligados ao esporte, estão olhando terra brasileira.

O nosso conterrâneo Fernando Pedrosa tem atuação eminente no certame. No Campeonato Nacional foi Árbitro Geral, representando a classe no Brasil e no Mundial será Árbitro de Honra, pela Scira brasileira, Fernando Pedrosa é, sabidamente, um entusiasta do Snipes e veterano na participação de campeonatos internacionais na Europa e América. Mas a conversa é outra.

Fernando Pedrosa levou sessenta jangadas, de 25 centímetros cada, miniaturas perfeitas e de acurado acabamento. Uma descrição completa do objeto, identificando as peças jangadeiras e a importância tradicional do barco, milenar e contemporâneo, na economia nordestina e como uma escola de heroísmo dos nossos pescadores.

Fez traduzir em três idiomas a informação (espanhol, francês, inglês) e faz uma distribuição afetuosa entre os 32 concorrentes estrangeiros, salientando a importância etnográfica daquela humilde embarcação que tem vencido dezenas e dezenas de séculos e continua sendo dos nossos dias.

A curiosidade, interesse vivo, surpresa alertada, escreve-me Fernando Pedrosa, têm sido envolventes. A jangadinha está constituindo um dos prêmios mais disputados, mais procurados, mais desejados como recordação e lembrança da disputa náutica.

Cabe ao Fernando Pedrosa esse serviço de extensão “universitária” da nossa jangada. É uma apresentação emocional que honra sua inteligente sensibilidade e ao mesmo tempo projeta aos olhos alheios à nossa cultura tradicional um dos elementos mais típicos, mais legítimos e mais palpitantes de significação étnica.

Não creiam que a oferta de uma Jangada seja depoimento de atraso e de rudimentarismo na indústria haliêutica. A Jangada não traduz um retardamento técnico no trabalho marítimo, mas uma sobrevivência valente no mesmo campo em que sempre atuou, o mar e a pesca, pesca de anzol, paciente e tenaz.

Quando os europeus industrializam, como recordações e “souvenires”, seus barcos, carros, instrumentos de trabalho, bem antigos, bem autênticos e bem conhecidos pelo povo, nós sofremos um complexo de inferioridade e escondemos a Jangada ou o Carro de Boi como índices de culpa, corpo de delito contra a Civilização e a Cultura moderna. Os antiqüíssimos barcos de Portugal, Espanha, Itália, Grécia, estão sendo vendidos em madeira, metal, porcelana, verdadeiras obras de artes. Nós ocultamos a Jangada como se fosse um crime a sua vida admirável. Graças a Deus a Jangada está no brasão do Estado do Rio Grande do Norte há meio século desde 1909. Escrevi um volume inteiro sobre ela e Fernando Pedrosa consagrou-a como um prêmio simbólico, valendo constância e teimosia na heroicidade cotidiana da batalha no mar.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 28 de outubro de 1959

Xumbregar 0

Natalense curioso envia-me afetuosa carta perguntando origem do vocábulo Xumbregar, e decorrentes Xumbregado, etc.

Diz-me ser sinônimo de embriagado, bêbado, e também dado às práticas libidinosas. Essas intimidades que se tornam públicas nos jardins e praças da cidade do Natal logo que a noite cai é Xumbregamento. Rapaz e moça estão Xumbregando.

Natalense curioso quer saber de onde nos veio tal nome.

Veio de um nobre alemão, soldado de fortuna, Armando Frederico von Schomberg, 1615-1690, Conde por nascimento e Duque de Schomberg pelo Rei da Inglaterra, Guilherme III. Antes se batera pela França contra a Espanha e em 1675 era Marechal de França, nomeação de Luís XIV.

Portugal reconquistara sua independência, aclamando o Duque de Bragança como seu soberano natural. D. João IV e Luís XIV mandou Schomberg em 1660 organizar o exército português para enfrentar o espanhol.

Armando Frederico von Schomberg era forte e airoso, vestindo-se com aparato e tendo vida de grão-senhor. Foi o espelho, modelo, árbitro das elegâncias no seu tempo.

Usava um tipo de bigodes que lhe tomou o nome, bigodes de guias voltadas para o alto e em vez de afiadas, tufadas e grossas. A forma de por o chapéu também determinou imitadores. Dizia-se A Chomberga adverbialmente, referindo-se ao uso do Marechal de Schomberg. Esse era Marechal de Campo desde 1652.

Os bigodes à Schomberg vieram até fins do século XVIII ou começo do XIX. E também casinhas que lhe mandara fazer para alojar seus criados foram Casas à Schomberg.

Apenas o português escrevia Chomberga e Xumbrega em vez de Schomberg. O Padre Antonio Vieira escrevia Xumberg.

De março de 1664 a julho de 1666, Pernambuco foi governado por Jerônimo Furtado de Mendonça, grande imitador de Schomberg e apelidado, desde Portugal, Xumbregas. Esse Jerônimo foi preso e deposto pelos pernambucanos que o odiavam.

Nesse tempo houve uma epidemia de bexigas em Olinda e Recife e o povo batizou a peste de Xumbergas em honra ao malavisado governador.

O Conde de Schomberg devia, pelos seus hábitos de boa vida, gostar dos prazeres da mesa e do sexo, como bom soldado e batalhador profissional. Havia de morrer em combate, de espada na mão, em Boyne, na Irlanda, defendendo a coroa do seu amigo Guilherme III.

O vocábulo virá dessa fonte, reminiscências de Armando Frederico von Schomberg que passou a ser Xumbergas e Xumbregas, suas predileções e amavios, com projeção na mania repetidora dos amigos e admiradores fervorosos.

Naturalmente aqueles que hoje Xumbregam jamais recordarão a paternidade para a denominação do ato licencioso e sensual. E menos os amantes do corpo, taça e cálice, pensarão no fidalgo alemão, Marechal de França, Duque pela Inglaterra, organizador do exército de Portugal na campanha da Independência, como padrinho do vocábulo Xumbregado.

Tal é o que posso responder ao Natalense curioso.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 17 de Novembro de 1959

O Rei está nu 0

Conhece a estória da roupa nova do Rei? Conhece certamente. É uma estória que se conta e se imprime há seiscentos anos, desde o livro do Infante Dom Juan Manuel.

O Rei recebe o oferecimento de um tecido tão maravilhoso que somente os homens inteligentes podiam vê-lo.

Os artistas estendiam a peça do brocado aos olhos de toda a corte, Rei, Rainha, Príncipes, Prelados, Cortesões, Clero, Nobreza, Povo.

Não havia uma só criatura que enxergasse o tal tecido inexistente. Todos, desejando provar a inteligência, gabavam as cores, a delicadeza, a graça inimitável do tecido invisível.

Assim foi feita a roupa nova do Rei, peça a peça, traje único que só podia ser visto por quem fosse inteligente.

Como a roupa era de coisa nenhuma, o Rei vestia apenas uma convenção, um resultado da tirania da fama.

Ninguém conseguia ver um fio sequer daquela farda imponderável, mas como todos se julgavam superiores, dotados de poderes de percepção, agudeza mental, atilamento psicológico, conhecimento nato, afirmavam a beleza incomparável de um objeto que não existia.

No dia da festa o Rei vestiu a roupa nova, feita com a fazenda miraculosa. E saiu debaixo de aclamações. Todos os jornais haviam elogiado o tecido mágico. Por toda imensa cidade as opiniões eram solidárias na aclamação daquela obra prima do bom gosto e da paciência técnica.

O Rei saiu, saudando e respondendo às salvas de palmas. Duma janela enfeitada, no meio da família em grande gala, uma criança, acima da convenção, acima da mentira, acima do tabu engolido pelo povo e a nobreza, gritou na força irresistível da verdade imediata, da verdade verificável, da verdade invencível:
- O Rei está nu!

E estava mesmo.

Não quero aplicar o conto de seis séculos às nossas vaidosas afirmativas de poeira humana, erguida pelo breve vento da vida às alturas do firmamento.

Se não é possível dizer que o Rei está nu, tenhamos ao menos a honestidade de não jurar que ele está muito bem vestido…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 16 de dezembro de 1949

Cada terra com seu uso 0

>Outrora dizia-se que cada roca tinha seu fuso e cada terra o uso respectivo.

Hoje quem fia o algodão em casa para que possua fuso e roca?

Raríssimo será quem haja visto uma roca e saiba lembrar como se fiava o fio de algodão.

No velho sertão de 1910 até 1920 ainda encontrei o uso. Todos os fios eram fiados em casa, no trabalho fiel às indústrias domésticas que vinham de época em que as residências isoladas no sertão eram outras tantas autarquias produtoras de utilidades.

A universidade dos objetos industrializados determinou a universidade do uso. Todos usam as mesmas coisas feitas aqui e além nas fábricas.

Os países sem tradição das indústrias domésticas, consolidadas em séculos de costume, perdem a cada dia os elementos distintivos, uniformizando-se, nivelando-se, monotonizando-se.

As concepções modernas da arquitetura tentam dar às cidades da China ou do Pólo as mesmas fisionomias. São os mesmos arranha-céus, explicados com palavreado imponente, mas tendo as finalidades lógicas das utilizações máximas do terreno que se valorizou demasiado.

O resultado é que as cidades estão ficando iguais. Certos aspectos de avenidas, blocos de casas altas de dez e mais andares, não diferem uns dos outros. Olhando uma fotografia onde os arranha-céus sacodem para o alto sua tonelagem de cimento armado, alinhados em fila, em avenidas que se recruzam em desenho retangular, ninguém é capaz de identificar se trata de Istambul ou do Cairo, Ipanema no Rio de Janeiro ou Avenida de Mayo em Buenos Aires, uma Rua de Paris atual ou de Belo Horizonte.

As rocas estão ficando com os mesmos fusos e as terras com a mesma fisionomia.

Restam os usos, os costumes, mores, o folk-way, para defender por algum tempo as dessemelhanças indispensáveis.

Como estamos assistindo aos espetáculos mais furiosos de ódio, ambição e bestialidade de homem contra homem, não passa despercebido a outra luta noutro setor da batalha.

O homem luta desesperadamente contra a Natureza para reduzi-la à unidade morfológica, ao monoteísmo estético e cômodo, princípios indispensáveis ao domínio de um só homem ou de um só povo sobre todos os outros.

Na diversidade dos costumes o domínio de um só é impossível.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 12 de novembro de 1949

Natal, cidade sempre nova 0

A cidade do Natal foi construída lentamente e com os materiais encontrados, em sua maioria, no próprio local. Ainda há casa na Rua do Senhor Santo Antônio com as madeiras cortadas ao redor do sopé da colina onde a cidade se erguera, na Praça André de Albuquerque. Mas as casinhas eram humildes e foram caindo. Na segunda metade do século XVIII alguns edifícios foram feitos com alguma pedra, resistindo melhor. Assim era o prédio do Erário, hoje Delegacia Fiscal, reformadíssima, e outro, de função oficial onde está o Palácio do Governo, derrubado e construído na segunda metade do século XIX.

Como esse material primeiro não era sólido, Natal foi desaparecendo na sua fisionomia seiscentista. Cada século fazia uma cidade nova. Atualmente não existe em toda a cidade uma só casa que date do século XVIII. Todas são posteriores a 1800. Excetuam-se as Igrejas, naturalmente…

Do próprio século XIX apenas os edifícios públicos reformados e consertados vão durando. As casas particulares são raras. De 1801 a 1850 não conheço nem uma sequer. De 1850 em diante lembro apenas duas. Uma na Rua Vigário Bartolomeu, vizinha à Maçonaria, creio que já substituída, e outra na esquina do Ano do Cólera, 1856. Quando a derrubarem para erguer outra moderna, terá desaparecido talvez a mais velha residência térrea da cidade.

No ponto de vista estritamente moderno esse desgastamento rápido foi um benefício. Natal é uma cidade sempre nova, sem casario triste e sujo, sem os sobradões lúgubres que ainda o Recife é obrigado a manter. Cidade pequena e pobre teve a recompensa da sua pequenez e humildade, não dando problemas maiores aos seus futuros administradores.

Os presidentes da Intendência, especialmente Joaquim Manuel Teixeira de Moura, cuidaram muito da arborização. Aí por 1905 plantaram mungubeiras vindas de Fortaleza, no Ceará. Tanto Joaquim Manuel como Fortunato Aranha eram apaixonados pela arborização frondosa, as sombras abrigadoras das ensolarisações ardentes. A Avenida Rio Branco, do Baldo até o Beco do Tecido (Juvino Barreto) quase, era ladeada por mungubeiras maravilhosas, moldura que encantava Dom José, terceiro Bispo de Natal. Meteram o machado em tudo.

A curiosidade maior é que a cidade sem problemas grandes foi alijando também suas belezas, afastando-as dos olhos dos natalenses atuais.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 10 de junho de 1949

O braço de São Francisco Xavier 0

Sou católico no geral e admirador de São Francisco Xavier no particular. Ninguém mais devoto da vida maravilhosa do Apóstolo das Índias nem da imensidade humaníssima do seu catequista.

Leio num jornal espanhol que as festas dedicadas ao grande Santo serão realizadas brevemente no Japão e mesmo o Imperador assistirá sessões solenes. Naturalmente uma delegação espanhola irá ao Japão, solidária com a presença espiritual do evangelizador do Extremo Oriente. Irá uma peregrinação. Organiza-se em Navarra, entusiasticamente, esse grupo de espanhóis que visitará o Japão para assistir mais uma vez a proclamação da glória do santo filho da Espanha conquistadora e cristã.

O sugestivo para mim é que o Marquês de Vivel, presidente da Confederação Católica dos Pais de Família e também dos antigos alunos dos colégios jesuíticos, declarou que a parte mais emocional e vitoriosa era a peregrinação acompanhar o braço de São Francisco Xavier que seria conduzido a Tóquio para dar uma bênção ao mundo.

O santo patrono dos missionários estará representado nesse braço mumificado e seco, erguido, como um ostensório para o santo sinal da cruz na capital do Japão? Será que essa relíquia despertará entusiasmo profundo e catequístico? Creio muito firmemente que não.

A relíquia sempre tem sido cuidadosa e parcamente recomendada pela Igreja. Não confundamos a palavra da Igreja com um movimento qualquer local ou nacional que empolgue padres e mesmo bispos. Nunca a Igreja recomendou a relíquia como uma solução piedosa e para ela tem lições serenas e justas como elementos determinadores da emoção piedosa pela evocação do corpo dos santificados. Jamais como instrumento e sim como elemento de piedade. O braço ressequido de um padre jesuíta, de vida alta, heróica e sobre-humana como suas próprias virtudes, despertará, indiscutivelmente, o movimento íntimo de atenção, associando-se ao pensamento o complexo da vida dedicada em função de Deus e o resto inerte do seu triste revestimento carnal. O corpo é da terra e o carinho com que nós, católicos, o sepultamos e guardamos na terra é porque esperamos nas divinas promessas da ressurreição da carne e ela valerá como invólucro para a flama divina que o animará ao ritmo da trombeta no vale de Josefá. O caso das relíquias é um dos mais delicados na casuística romana. Mais delicado pela sua complexidade.

Não sei se esse braço de São Francisco Xavier valerá a presença viva do seu nome…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 25 de maio de 1949

Para que meu povo se salve 0

O padre dom Luís Sotomaior Garcia, pároco de Encarnação de Arjonilla, Jaen, na Espanha, falava aos seus paroquianos na Matriz, às nove e meia da noite, numa breve pregação durante a bênção. Erguendo a mão, o sacerdote disse: – Doy mi corazon y mi vida para que mi pueblo se salve…

E caiu com um colapso. Morreu imediatamente, aos pés do altar iluminado, olhando o assombro dos fiéis estarrecidos. Deus aceitara o sacrifício em oblação desinteressada e suprema ao povo, ao meu povo, como disse ao morrer, o pároco da Encarnação.

Foi uma coincidência. Não vamos discutir coincidências e acasos. O que não pertence às classes da coincidência e do acaso são as palavras ditas do altar e que se tornam as últimas pronunciadas na terra por esse padre.

Cabe aqui perguntar a diferença entre esse povo que merece a dedicação de uma vida religiosa e a Massa que é sacudida para matar a outra “massa” desarmada, inerte e assombrada.

Pode-se anunciar que a oblação da vida do padre Luís Sotomaior Garcia é um bom sermão na semana preparatória da Semana Santa.

Dificilmente é possível palavras mais eloqüentes e oportunas. Nenhum outro sermão se afastará desse cânon heróico de oferecer a vida para existência do povo. Antes morra um homem que todo um povo pereça, decidiu um sábio de Sinagoga, referindo-se a Jesus Cristo.

Agora outro homem oferece publicamente sua vida, num período apenas literário e que se tornou o epitáfio pessoal do orador oficiante.

Antes todas as sombras violentas de guerra, a formação visível da tempestade furiosa de ódio e de violência bestial, o rebanho humano sofrerá mais uma vez a tortura implacável e a presença da morte oprobiosa e sangrenta. As mãos do padre só possuem uma arma rudimentar: dois pedaços de madeira cruzados na altura do terço na extensão. Sempre que essa arma é trazida para o combate e vivida com Fé, fatalmente vence. Quando não vence é porque o portador não tinha o direito de trazê-la para o debate com os demônios perpétuos de força e de habilidade.

O padre Sotomaior Garcia fez seu elogio, elogio do seu apostolado, e usou a arma invencível e pacífica. E por ela, para que vencesse os fracos contra os fortes e os famintos contra os fartos, opondo a placidez da serenidade ao domínio da brutalidade irracional e cega, ofereceu-se para a morte. E seu povo, todo o seu povo, o povo da sua fé, viverá…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de abril de 1949

A raposa no pomar 0

Essa  estória está no TORAH, numa das edições que conheço. É lição de sabedoria israelita que muito pouca gente, judia e cristã, compreende e segue nos dias rápidos do mundo.

Uma raposa andava procurando almoço quando encontrou um grande e alto muro. Rodeou-o, farejando e deparou um buraco por onde avistou o paraíso do estômago e boca. Árvores de frutos semeando o solo de peças maduras, animais de fácil presa, soltos, passeando, ao alcance de uma dentada técnica, mil coisas para comer e viver, tudo pertinho, sem complicação, perto do dente.

A raposa pulou e repulou, mas descobriu que jamais passaria pela abertura da muralha com o corpo que tinha. Era gorda demais. O buraco era pequeno. Para atravessar seria indispensável emagrecer tanto que possibilitasse a passagem.

Ficou então jejuando, jejuando, língua de fora, ficando magra, para passar pelo muro e engordar do lado de dentro.

Dias depois tentou passar e passou. Estava tão magrinha que a abertura ficara larga para ela.

Entrou então a regalar-se, comendo de tudo, deliciando-se. E também engordando, engordando, rapidamente.

Tempos depois achou que devia livrar-se dos perigos daquele pomar misterioso. Podia o proprietário aparecer com uma boa vara e a surra estaria muito cara para os repastos saboreados.

Tentou repassar para a estrada, mas não conseguiu. Estava muito gorda. Forcejou. Debalde feriu as patas no esforço da escápula. Não podia reganhar a outra paisagem. Só lhe restava o remédio amargo de conseguir o antigo peso pluma, não comer e perder as banhas até o diâmetro antigo.

E ficou jejuando, jejuando, emagrecendo, emagrecendo.

Alcançou o antigo e esquecido peso velho e facilmente passou pela abertura e voltou aos caminhos velhos, com liberdade e fome tradicionais.

Só então é que a Raposa pensou no papel humano que fizera. Para entrar, passara fome. Engordara no pomar, mas perdera todas as vantagens para poder sair. Tivera de passar fome novamente para libertar-se.

Estava com o mesmo peso e a mesma fome anteriores. Não valia o sacrifício tal inutilidade física e tais renúncias morais. Melhor seria a dieta comum, parca e constante, sem dias de jejuns intercalando horas de farturas. A Raposa ficou meio envergonhada. Até aqui é a estória do TORAH. Se houver alguma semelhança é mera coincidência.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 06 de abril de 1949

Viriato 0

Anotando uma estória velhinha e  banal, o sapo que vai a uma festa no céu, reli a versão do ERA UMA VEZ… de Viriato Corrêa e João do Rio. Essa estória mereceu um estudo de João Ribeiro e ainda há muito que respingar e deduzir no processo de convergência que a constitui.

E fui lendo estória a estória, esquecido do confronto. E passei a outros livros. E comecei a lembrar minha vida no Rio de Janeiro, a estréia da JURITI, com música de Chiquinha Gonzaga, peça em que Procópio Ferreira fazia o Zé Fogueteiro, uma pontinha de movimento. – Zé Fogueteiro quem é teu pai? – Mamãe num sabe…

O conto, histórico, a narrativa movimentada, humana, colorida, sugestiva, cheia de pitoresco, de originalidade, de fixação de interesse, começou com ele. Ninguém antes de Viriato contou uma história com mais limpidez, claridade e precisão rápida. E era apenas uma página. Ninguém imaginou diálogos mais fascinantes nem descreveu cenas mais lógicas. Viriato trouxe a História, grave e serena, ao convívio democrático de todas as inteligências, de todos os raciocínios, de todas as compreensões. Popularizou-a sem banalizá-la.

Revolvia e mastigava uma biblioteca para reunir uma simples página brilhante. Poucos sabiam o trabalho do miniaturista para conseguir aquele milagre de síntese, de graça, de delicadeza tranqüila.

E há o teatrólogo vitorioso. As peças que faziam centenários, com as figuras do sertão vivendo e dominando. E o cronista nítido e sóbrio como uma água-forte, a precisão vocabular incomparável, faiscando de ironia.

No final também descubro que fui à festa no céu escondido na viola mágica desse violeiro verbal que o Maranhão emprestou ao Rio de Janeiro para maior glória brasileira.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 04 de abril de 1949

O exemplo dos Bandar-Log 0

No Jungle Book, Rudyard Kipling lembra o grande povo dos Bandar-Log, habitantes das árvores, livres e alegres criaturas, devotas do próprio mérito.

Todos os animais da selva têm um chefe, uma ordem, uma lei e uma palavra para identificar-se. Reconhecem nas outras espécies os direitos da fome e o dever da caça.

Os Bandar-Log dispensam tudo. São livres. Não têm tradição porque neles a memória registra apenas o fato imediato. Não admitem pousada certa nem amigos demorados. Livres. Independentes. Soberanos. Sempre estão quase dispostos a eleger um chefe, proclamar suas leis e usos prodígio da deliberação anterior. Para os Bandar-Log não há o bem nem o mal porque não há imagem de confronto nem reminiscências cotejadoras. O que amam agora odeiam depois de vinte minutos. Não há um Bandar-Log que não havia sido genial e medíocre cada dia. O espírito é leve, airado, voluptuoso.

Vivem pulando pelas árvores, elegantes, libertos, sedutores, admiráveis de agilidade, graça, beleza, uns para os outros. Do seu tino cotidiano há um verso assim: – O que os Bandar-Log pensam agora toda a jangla pensará depois!

Vaiam estridentemente todos os animais que constroem seu abrigo e dormem na toca. Atiram sementes e frutos secos em que passa abaixo das árvores onde vivem, espalhando as puleridades dos saltos e o amavio dos gritos.  Não têm casa nem alimento certo. Cantam, continuamente: – Não há nada na selva mais sábio, melhor, mais forte, mais apto e prudente como os Bandar-Log! E todo o bando, no vôo fulminante pelas galharias, aplaude o fervoroso e mútuo elogio.

Mogli viveu algumas horas entre eles. Ouviu-os proclamar, modestamente, as excelências: – Somos grandes! Somos livres! Somos admiráveis! Somos o mais admirável povo da floresta…

Rudyard Kipling disse que nenhum outro animal concorda com esses dogmas dos Bandar-Log, lépidos, sonoros, espirituosos, realizadores de esplêndida vadiagem deliciosa. Vivem nas matas da Índia.  Deixaram exemplo na Jungle Book. Há quem os imite no canto e na devoção extasiada e pessoal?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de março de 1949

O cortejo universitário de São Francisco da Califórnia 0

Em princípios de novembro, a cidade de São Francisco festejou o aniversário do descobrimento da Baía do mesmo nome, há cento e setenta e nove anos.

Muita gente está convencida de que o americano do norte é um matador das suas tradições, inimigo da sua história, vândalo esfomeado, espatifando quanto possa lembrar velhice e tempo passado.

Quem viveu algum tempo por aquele mundo diz justamente o contrário. Só se muda, só se transforma, só se modifica nos Estados Unidos o que deve ser mudado, transformado, modificado. Tudo quanto estiver relacionado com um episódio histórico está sagrado para sempre. Ninguém mexe. Não há atrevimento capaz de por o dedo em cima. Vezes constroem um edifício imenso para cobrir uma casinha em que nasceu um poeta grande ou vive um dos presidentes maiores da federação. Há nos Estados Unidos ruas com nomes de duzentos e mais anos.

Em São Francisco da Califórnia, cada novembro, há uma festa oficial e popular, comemorando o descobrimento da baía diante da cidade imensa. Não se trata de uma comemoração burocrática e sonolenta como a fundação do Rio de Janeiro dentro da Prefeitura do Distrito Federal. Em São Francisco é um dia cheio de evocações históricas, com representações que trazem ao espírito do norte-americano de hoje o trabalho do norte-americano de ontem e do anteontem.

Um desfile que custa muito dinheiro é mantido orgulhosamente pela Prefeitura e pelo povo como uma exibição visível da grandeza humana e do esforço do homem de São Francisco através dos séculos.

O desfile de novembro de 1948 constou em 218 unidades em marcha, num total de sessenta e cinco mil pessoas, com oitenta e nove bandas de música e trinta e nove bandas de clarins. Naturalmente, as “girls” não faltaram com a plástica ostensivamente verificável em sua beleza. Oitenta e duas “girls” vestidas de tambor-mor evoluíam, fazendo piruetas com os bastões-de-ritmo, ornamentados. Centenas de cavaleiros, vestidos rigorosamente como na época do descobrimento, isto é, em 1769, desfilaram. Uma caravela portuguesa passou também, em cima de um carro alegórico. Podia-se dizer que era a própria História revivida aos olhos de 1948.

Este é um Estados Unidos pouco citado, mas muito digno de exemplo na memória de quem admira a borracha de mastigar e Hollywood.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 09 de março de 1949

Brasileirismos… de Portugal 0

Andei rodando Portugal de Valença de Minho até o Algarve. Rodando com os olhos e ouvidos alertados. Ia para estudar e não para passear, como turista irresponsável e rico. Sabia das dificuldades vencidas e da remota possibilidade de um retorno à Europa. Era obrigado a ver e ouvir como devia. Não me arrependo dos cuidados que punha na observação menor.

Conversando com o povo nas feiras, arraiadas, festadas, trabalhos rurais, ia ouvindo vocábulos que pensava originários do Brasil ou propriedade do brasileiro do interior. Palavras e frases, imagens descritivas ou comparativas surgiam com surpreendente igualdade às do meu país. Igualdade e, muitíssimas vezes, identidade.

Dizemos “Ar do Dia” como crepúsculo, fim-do-dia. Nos livros regionais é registrado como um tipismo inquestionável. Em Alandroal, em Alentejo, canta-se:
- Em se pondo o Ar do Dia
- Fica na escuridão!

O Sr. J. A. Pombinho Júnior publicou “Cantigas Populares Alentejanas” num volume que fixa muito bem esses brasileirismos… de Portugal.

Diz-se “Bandoleiro” por volúvel, “Confiado” por atrevido, “Desenfeliz” por infeliz, “Função” por baile, festa, “Fundura” por profundidade, “Paleio” por conversa fútil, “Home” por homem, “Céu-da-boca” por palatino, estão nesses versos:

Tu és clara como leite
E o leito também se come,
E tens dois olhos na cara
Que enganaram a qualquer homem
Qual é que será o tolo
Que faz caso de ti, ó louca.
Tu tens falta de miolo
Por cima do céu-da-boca.

Extremoz, a nossa povoação no Município de Ceará-Mirim, nasceu de um topônimo alentejano, a cidade de Extremoz, grande, cercada de muros, cheia de vida e de cor, onde fiquei um dia inteiro. Extremoz exporta uma cerâmica deliciosa, de onde faz parte a famosa Bilha-dos-Namorados. Uma pronúncia muito nossa é dizer “Estremôris”. Julgava eu deturpação prosodial possivelmente ligada a um processo pessoal de deformação verbal. É pronúncia da região portuguesa. Nós apenas a repetimos:

Se quisesse amar bonecos
Mandavo’vir de Stremôris Vergonha de minha cara
Se eu contigo amôris
Se eu contigo tinha amôris
Se eu era o tê namorado;
Mandava’os vir de Stremôres,
Mandava’os vir do Chiado!
“Fachada” por visão de conjunto, vista, efeito. “De-continui” por continuamente:
A fedor de carapêto
Só longe Fachada faz
Se não me amas com jêto,
A força não és capaz!
A tua cara é uma rosa
Foi feita d’alfobre fino,
As tuas feições formosas
Cá me alembram de-continui

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 04 de março de 1949
Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares e Sandro Fortunato