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O Cirurgião Dentista, em Natal, é quase dos nossos dias. Tivemos o primeiro Médico do Partido Público, em 1842, Dr. José Bento Pereira da Mota e, antes, em 1831, possuíamos um Cirurgião do Partido do Município do Natal, João José de Oliveira, ganhando trezentos mil réis por ano. Não se fala em Dentista. Mas essa “Arte” estava confiada aos Barbeiros.
Os remédios tradicionais, arruda com leite humano, azeite doce quente, fumar alfazema, cravo esmagado, eram clássicos. Superiores em eficácia, as orações. Em Augusto Severo, a velha Chica Cardosa rezou, com um raminho verde na mão, “a reza de Santa Pélonha” (Apolônia) para que meu queixal deixasse de doer. E deixou. A oração era assim: “Estava Senhora Santa Pélonha em sua cadeira de ouro sentada, com a mão posta no queixo. Passa Nosso Senhor Jesus Cristo, perguntou: – O que te dói Pélonha? Um dente, Senhor. Pois, Pélonha, do sul ao norte e do norte ao sul, ficará essa criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalicido e força de sangue, sendo sã e limpa como as cinco chagas de Nosso Senhor, Padre Nosso e Ave-Maria”.
O Dentista verdadeiramente era um Barbeiro “curioso”. Exerciam esses a profissão, mansa e pacífica, sem concorrência e possível rivalidade. Ao princípio tudo se cingia a extração, com alicate, fio de arame enrolado no pé do dente, puxado num brusco safanão. As crianças tinham um pavor incontido. Naturalmente o Barbeiro alargava a raia dos conhecimentos, ensinando remédios e sugerindo modificações na prática odontológica. Tudo que é grande se iniciou humildemente.
Ainda em julho de 1888, para 2.748 Médicos, 1.613 Farmacêuticos, matriculados na Inspetoria Geral de Higiene da Corte, havia apenas 329 Dentistas para o Império do Brasil. Nesse mesmo julho de 1888, Natal possuía quinze Médicos e quatro Farmacêuticos. Nenhum Dentista. O Barbeiro continuava, de boticão em punho, fazendo berrar as crianças e sofrer os homens, nas horas amargas da operação.
A técnica evoluía lentamente. Aparecia barbeiro hábil, com algum material afastando o mais possível o martírio dos processos primitivos.
Na Gazeta do Natal, no. 88, de 3 de novembro de 1888, líamos ainda esses anúncios: – “Elísio Leite, artista cabeleireiro, de passagem por esta Capital, avisa ao respeitável público, que extrái, obtura, limpa e abre dentes, sem que o cliente sinta muito incômodo na operação, empregando para este fim o cloridrato de cocaína, podendo ser procurado para os misteres de sua arte, na oficina de cabeleireiro do Sr. José Antônio Areias à Rua Tarquínio de Souza, no. 91”.
João Batista Debret ainda viu, e desenhou deliciosamente, a “Loja de Barbeiros” no Rio de Janeiro sob Dom João VI. Ali estão os ferros do profissional, toda a aparelhagem torturante e a tabuleta esclarecedora: – “BARBEIRO, CABELEIREIRO, SANGRADOR, DENTISTA E DEITÃO BIXAS”.
O Barbeiro-Dentista também aplicava, no sul do Brasil, as sanguessugas e, em toda parte, fazia “sangrias”. Como todas as moléstias dependiam dos “humores” e era a abundância de determinado “humor” a explicação da doença, retirá-lo, pela via sanguínea, pertencia ao domínio da lógica. Sangrar-se era habitual, comum, indispensável. Os indígenas empregavam esse método, usando o Pajé o dente de cotia como lanceta. Ainda alcancei, no velho Natal, de 1908, “Seu Maranhão”, “prático” de Farmácia, sendo chamado para “sangrar”, no pé, correndo o sangue dentro duma bacia, cheia d’água morna, com uma pitada de sal e gotas de vinagre.
A tradição do Barbeiro-Dentista era peninsular. Portugal e Espanha tiveram seus heróis, nessa espécie. Júlio Diniz ainda fotografou, com a graça de seu estilo tranqüilo, um desses mestres-barbeiros, competindo com os médicos, na “As Pupilas do Senhor Reitor”. Uma réplica espanhola é o tipo imortal do Fígaro, no “Barbeiro de Sevilha”, que Caron de Beaumarchais fixou, espadachim, dentista, intrigante, espirituoso, invencível.
Em Natal, anos e anos, o Dentista fazia barbas e aparava cabelos. O antigo “ditado”, verídico e natural, indicando que ao necessitado compete procurar alívio, recorda a fisionomia de uma atividade que o Tempo levou…
A quem dói o dente, vai a casa do Barbeiro…
Luís da Câmara Cascudo
A República, 29 de Setembro de 1940


