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Quem dói o dente vai à casa do barbeiro 0

O Cirurgião Dentista, em Natal, é quase dos nossos dias. Tivemos o primeiro Médico do Partido Público, em 1842, Dr. José Bento Pereira da Mota e, antes, em 1831, possuíamos um Cirurgião do Partido do Município do Natal, João José de Oliveira, ganhando trezentos mil réis por ano. Não se fala em Dentista. Mas essa “Arte” estava confiada aos Barbeiros.

Os remédios tradicionais, arruda com leite humano, azeite doce quente, fumar alfazema, cravo esmagado, eram clássicos. Superiores em eficácia, as orações. Em Augusto Severo, a velha Chica Cardosa rezou, com um raminho verde na mão, “a reza de Santa Pélonha” (Apolônia) para que meu queixal deixasse de doer. E deixou. A oração era assim: “Estava Senhora Santa Pélonha em sua cadeira de ouro sentada, com a mão posta no queixo. Passa Nosso Senhor Jesus Cristo, perguntou: – O que te dói Pélonha? Um dente, Senhor. Pois, Pélonha, do sul ao norte e do norte ao sul, ficará essa criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalicido e força de sangue, sendo sã e limpa como as cinco chagas de Nosso Senhor, Padre Nosso e Ave-Maria”.

O Dentista verdadeiramente era um Barbeiro “curioso”. Exerciam esses a profissão, mansa e pacífica, sem concorrência e possível rivalidade. Ao princípio tudo se cingia a extração, com alicate, fio de arame enrolado no pé do dente, puxado num brusco safanão. As crianças tinham um pavor incontido. Naturalmente o Barbeiro alargava a raia dos conhecimentos, ensinando remédios e sugerindo modificações na prática odontológica. Tudo que é grande se iniciou humildemente.

Ainda em julho de 1888, para 2.748 Médicos, 1.613 Farmacêuticos, matriculados na Inspetoria Geral de Higiene da Corte, havia apenas 329 Dentistas para o Império do Brasil. Nesse mesmo julho de 1888, Natal possuía quinze Médicos e quatro Farmacêuticos. Nenhum Dentista. O Barbeiro continuava, de boticão em punho, fazendo berrar as crianças e sofrer os homens, nas horas amargas da operação.

A técnica evoluía lentamente. Aparecia barbeiro hábil, com algum material afastando o mais possível o martírio dos processos primitivos.

Na Gazeta do Natal, no. 88, de 3 de novembro de 1888, líamos ainda esses anúncios: – “Elísio Leite, artista cabeleireiro, de passagem por esta Capital, avisa ao respeitável público, que extrái, obtura, limpa e abre dentes, sem que o cliente sinta muito incômodo na operação, empregando para este fim o cloridrato de cocaína, podendo ser procurado para os misteres de sua arte, na oficina de cabeleireiro do Sr. José Antônio Areias à Rua Tarquínio de Souza, no. 91”.

João Batista Debret ainda viu, e desenhou deliciosamente, a “Loja de Barbeiros” no Rio de Janeiro sob Dom João VI. Ali estão os ferros do profissional, toda a aparelhagem torturante e a tabuleta esclarecedora: – “BARBEIRO, CABELEIREIRO, SANGRADOR, DENTISTA E DEITÃO BIXAS”.

O Barbeiro-Dentista também aplicava, no sul do Brasil, as sanguessugas e, em toda parte, fazia “sangrias”. Como todas as moléstias dependiam dos “humores” e era a abundância de determinado “humor” a explicação da doença, retirá-lo, pela via sanguínea, pertencia ao domínio da lógica. Sangrar-se era habitual, comum, indispensável. Os indígenas empregavam esse método, usando o Pajé o dente de cotia como lanceta. Ainda alcancei, no velho Natal, de 1908, “Seu Maranhão”, “prático” de Farmácia, sendo chamado para “sangrar”, no pé, correndo o sangue dentro duma bacia, cheia d’água morna, com uma pitada de sal e gotas de vinagre.

A tradição do Barbeiro-Dentista era peninsular. Portugal e Espanha tiveram seus heróis, nessa espécie. Júlio Diniz ainda fotografou, com a graça de seu estilo tranqüilo, um desses mestres-barbeiros, competindo com os médicos, na “As Pupilas do Senhor Reitor”. Uma réplica espanhola é o tipo imortal do Fígaro, no “Barbeiro de Sevilha”, que Caron de Beaumarchais fixou, espadachim, dentista, intrigante, espirituoso, invencível.

Em Natal, anos e anos, o Dentista fazia barbas e aparava cabelos. O antigo “ditado”, verídico e natural, indicando que ao necessitado compete procurar alívio, recorda a fisionomia de uma atividade que o Tempo levou…

A quem dói o dente, vai a casa do Barbeiro…

Luís da Câmara Cascudo
A República, 29 de Setembro de 1940

Sua excelência o Chauffeur 0

A intensidade da vida contemporânea está revelando em certas profissões os ângulos de projeção social inteiramente imprevistos. Já tenho teimado em dizer que todas as ocupações funcionais têm mais de uma dimensão e sacodem influências insuspeitadas para muitos campos da coletividade.

Um dos encargos mais decisivos e típicos é do Chauffeur.

De condição humilde, alguns apenas alfabetizados e destituídos de qualquer rudimento de educação, outros de famílias tradicionais que empobreceram, mas se mantém estudiosos, alertas, observadores, excelentes no trato social, a “classe” possui, como todas as classes humanas, os tipos variados de temperamento, inteligência e maneiras.

Apenas muita gente não percebe que o Chauffeur é o mais vivo e poderoso elemento de aproximação, vencedor normal e modesto das distâncias interurbanas na simplicidade das horas cotidianas.

É o Chauffeur o revelador da Cidade, àquela que a apresenta e mostra ao visitante, dizendo-lhe as belezas, as sugestões, os encantamentos. É o informador, o confidente, o companheiro, o amigo das horas angustiadas em que é preciso a parteira, o médico, o padre.

Seu santo é São Cristóvão que transportou Jesus Cristo. O Chauffeur transporta os filhos de Adão na diuturnidade de seus problemas, sonhos e esperanças. Vence, na limitação da Cidade, o tempo e o espaço. Nas praças silenciosas, a noite inteira, velam, esperando o momento de servir. São uma espécie de Pronto Socorro, de vigilância prestante, de colaboradores anônimos.

Não sabem o destino moral do “passageiro” apressado e desconhecido, mas o levam ao horizonte de sua vontade.

De um bom ou mau Chauffeur depende, às vezes, a boa ou má impressão de uma cidade percorrida. Se ele sabe mostrar, explicar, esclarecer, a paisagem cresce, valorizada pela emoção; se nada surgir, Chauffeur calado e mau-humorado, a corrida é uma velocidade monótona entre casas sem fisionomias.

Por isso o Chauffeur deve saber informar, dirigir o automóvel e a curiosidade do passageiro. É seu papel em todo o Mundo.

Seria aconselhável a existência de um indicador fácil e cômodo que possibilitasse ao Chauffeur o material de suas notícias. Ou que cada um deles possuísse, como seus colegas do Rio de Janeiro, de S. Paulo, de Belo Horizonte ou de Porto Alegre, um exemplar do Guia da Cidade, para poder dizer ao seu passageiro onde a Cidade foi fundada, qual é a mais antiga rua e o mais velho edifício, a origem dos nomes dos bairros e dos logradouros mais tradicionais, enfim um pequenino resumo da História, em poucas palavras, mas não podendo ser inventado e substituído pela imaginação.

Para a vibração das nossas horas atuais é o automóvel o símbolo mais próximo da comunicação e da mobilidade. O Chauffeur, que até 1900, em Paris, queria apenas dizer o Foguista, passou a ser Piloto do Automóvel, porque o “motorista” é aquele que cuida do motor e não o que dirige. É um dos servidores mais imediatos, uma das articulações mais instantâneas entre os interesses e necessidades da hora comum. Oswaldo Spengler dizia que estávamos no Século do Chauffeur. Não é possível dispensarmos-nos de sua colaboração. Daí a importância diária e natural, inteira e real do Chauffeur, seu papel na missão moderna e a exigência de compreendermos que não está ali apenas um homem com a mão no volante, mas uma criatura humana cumprindo encargo indispensável e urgente para conservação do nível técnico de nossa vida atual.

Naturalmente, Sua Excelência o Chauffeur, na sua missão social de aproximador, de rápido professor de viajantes e curiosos, tem os deveres de sua função, a cortesia, a polidez do trato, a higiene do traje e do vocabulário, sabendo que está não apenas ganhando a vida, mas servindo sua cidade e ajudando o futuro de todo aquele aglomerado de casario e criaturas.

Sossegue o leitor. Não sou candidato a coisa alguma no campo eleitoral. Sua Excelência o Chauffeur pode votar em quem quiser. Nanja eu que lhe peça votos. Mas, pela força de vontade, bem merece a classe uma palavra de estímulo e de simpatia…

Luís da Câmara Cascudo
A República, 24 de Outubro de 1959

Toque de sino 0

O Dr. Antônio Francisco Pereira de Carvalho, que presidiu o Rio Grande do Norte de julho de 1852 a outubro de 1853, era homem inteligente, cheio de boas idéias, fazendo uma administração apreciável. Deixou, entretanto, fama de neurastênico. Vivia zangado. Deram-lhe a alcunha de “Carvalho amarelo”. Entre suas idiossincrasias estava não tolerar o toque do sino. Quando ele aqui esteve a Matriz não tinha a torre e os sinos eram outros, menores, pendurados num janelão, à direita da Igreja. Ouvindo os dobres-de-finados, não os suportando nem podendo proibir, Pereira de Carvalho arranjara um processo fácil, mas caro. Mandava um soldado falar com o sineiro. O ordenança chegava, olhava o sacristão e perguntava: – Quanto vai tocar de sinais? – Meia pataca – Se não tocar mais, dou um cruzado. O sineiro batia, por descargo de consciência, um toquezinho e o sino parava.

Os nossos sinos plangem e festejam muitíssimo menos que outrora. Há uns oitenta anos, Natal ouvia sinos o dia inteiro. O sino era o auto-falante, avisador das horas de solidariedade cristã e social. Além de finados, batizado, repique-de-anjo, chamada-de-missa, chamada-de-irmandade, o sino possuía outros apelos. Dez badaladas seguidas avisavam que alguém ia entrar para o Mundo. Nove batidas, era menino. Sete, era menina. Quando um cristão estava na agonia, o sino informava, em toques repetidos e espaçados, pedindo orações. Era uma linguagem sonora entendida pelos corações fiéis. E havia toque-de-recolher, toque-de-incêndio, fora os repiques festivos.

No Rio de Janeiro imperial, com todas as Igrejas e Capelas, os sinos enchiam os ares de lamentos ou alegrias, vibrando sem cessar pelas bocarras de bronze. Tanto tocaram, tanto tocaram, que a Sociedade de Medicina acabou reclamando, oficialmente, aos ilustríssimos membro da Regência. E o Ministro Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, o futuro Visconde de Sepetiba, que, naquele tempo, gastara duzentos mil réis de sorvetes numa festa, oficiou ao intendente de Polícia, Francisco Correia Vidigal, ordenando que fizesse por em prática e executar o determinado na “Constituição do Arcebispado da Baía” título 48, no. 828. O “aviso” ministerial é datado de 26 de abril de 1834.

Curioso é recordar o artigo da “Constituição do Arcebispado da Baía” que regulariza o toque-do-sino e sua duração. Reza assim:

“DOS SINAES QUE SE HÃO DE FAZER PELOS DEFUNTOS: – Justamente se introduzio na Igreja Católica o uso e sinais pelos defuntos; assim para os fiéis se lembrem se encomendar suas almas a Deus Nosso Senhor, como para que se incite, e avive neles a memória da morte, com a qual nos reprimimos, e abstemos dos pecados. Porém, porque a vaidade humana, e outros menos piedosos respeitos tem introduzido neste particular alguns excessos; para que d’aqui em diante os não haja, ordenamos, e mandamos, que nisso haja toda aquela moderação, que a prudência cristã e religiosa pede. E, para que se ponha algum termo certo, mandamos que tanto que falecer algum homem se fação três sinais breves, e distintos, e por mulheres dois; e se forem menores de sete até quatorze anos de idade, se fará um sinal somente, ou seja macho ou fêmea; e por estes sinais do falecimento se não pedirá salário. E depois quando forem levados a enterrar, se farão outros tantos sinais que até nove por homem, seis por mulher, e três pelos de menor idade; o que se entende na Igreja onde é freguez, ou se enterrar o defunto somente”.

Dom Luiz Raimundo da Silva Brito, Bispo de Olinda, nas “Constituições Sinodais da Diocese de Olinda”, promulgados pelo Sínodo em fevereiro de 1908, legislou sobre o toque-de-sino (p-70):

“166. Não poderá permitir mais de três sinais fúnebres por adultos ou repiques por parvulos, sendo o primeiro sempre grátis e não durará cada um mais de cinco minutos”.

Ordenava que só na Igreja Matriz seriam tocados os sinais, nas outras Igrejas somente por seus Irmãos. E morrendo o Papa ou Bispo todas as Igrejas dariam os sinais durante três dias, três sinais por dia, somente.

Lembremo-nos que, segundo a tradição ainda viva em Natal, quando o Senador Pedro Velho faleceu, o sineiro tocou nada menos, pela sua conta e cálculo, de quinhentos mil réis, de sinais! E mandou a “conta”. Pagaram a décima parte da “dívida”.

O mais curioso sucedeu com um sineiro político, oposicionista. Quando o Governador do Estado tomava posse, solenemente, o sineiro agarrou-se às cordas e fez os sinos dobrarem, finados! E quanto durasse a cerimônia, o sino choraria como poetava Guerra Junqueira, lágrimas de bronze na amplidão

Luís da Câmara Cascudo
A República, 22 de Agosto de 1940

Lendo um livro de canções 0

Editado por J. Ribeiro dos Santos, Rio de Janeiro, 1911, encontrei entre livros velhos essas Canções Populares do Brazil com Z, como então era de bom uso.

Foi uma leitura-viagem porque as modinhas voltaram a lembrar-me que a memória inconscientemente as guardara. Pude identificar a origem dessa reminiscência.

Tínhamos um gramofone, de imensa bocarra, e uma boa pilha de discos. O vozeirão atroava, anunciando:- Casa Branca da Serra, cantada pelo Mário, para a Casa Edison, Rio de Janeiro…

E vinha, às vezes, o endereço que não esqueci:- Rua do Ouvidor, cento e cinco!

Volto a ler e quase a ouvir as modinhas e as chulas do passado. O Vago Mestre. Ninguém o recorda mais:

Cigarro no queiro,
Chapéu desabado,
Faca na cinta,
Cacete na mão,
Gingando na rua
Com ar insolente,
Provoca a polícia,
Tomando o facão!…

Modinhas sentimentais entoadas com enfástica prosódia, pernóstica e saudosa:

Nessa pralha de límpidas arelhas!…
Prauteadas á noite pela lua…

Chico Botelho cantando o

Quis debalde varrer-te da memória
E o teu nome arrancar do coração.

Modinha preferida pelo Senador Pedro Velho que sabia acompanhá-la ao piano, no sabor sereneiro da velha Bahia onde estudara.

Luís Ávila arremedando os capadócios, ao som do piano onde Teodorico Guilherme fazia misérias.

Haverá entonces de sê só minha
Esta fada, esta fada tão fermosa!
Como estrela, presa ao céu
Na fresca gaia, na fresca gaia é Cuma a rosa!

E repetia-se, num ritornelo garganteado, terminando em fermata do tenor napolitano. Impossível esquecer o sucesso…

E Segundo Wanderley, indispensável, do Poeta e a Fidalga:

Tu passas indiferentes
Por sobre os fundos pezares,
Tens nalma os gelos polares,
Em vez da luz do equador…

E ainda a famosa Não és tu, que meu Pai acompanhava ao violão e cantara ainda rapaz:

Não és tu quem eu amo, nem Laura,
Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês!
A mulher que minh’alma idolatra
É princesa do império chinês!…

Lindo! Já não existem princesas nem Império Chinês, mas a velha modinha tudo ressuscita, numa dolência suave de crepúsculo:

Acorda, Adalgisa
Que a noite desliza,
Vem ver o luar!…

Também Catulo da Paixão Cearense cantava seus versos:

Vê que amenidade,
Que serenidade,
Tem a noite em meio…

Vamos parar. Essas vozes ainda ressoam no Ontem ao Luar na Rádio Nordeste, dando vida às mortas sonoridades. Grácio Barbalho está com um programa delicioso, Museu de Discos, documentando musicalmente e recente passado. Ouvinte de ambos, fecho agora o volume mágico dos sereneiros mortos, volume de 48 anos vividos.

Ferreira Itajubá tem um soneto que termina afirmando:

Que mal me trouxe esse postigo aberto!…

De minha parte, guardando o Canções Populares do Brasil, penso:

Que mal me trouxe esse livrinho aberto!…

Luís da Câmara Cascudo
A República, 19 de Novembro de 1959

Presença da Jangada 0

Em 1957 (Serviço de Documentação do Ministério da Educação) foi publicada uma minha pesquisa etnográfica sobre Jangada, destinada a Societé D’Etudes Historiques Dom Pedro II. Era a primeira tentativa de estudos completo.

Carlos Galvão Krebs conheceu Thor Heyrdahl em S. Paulo e o navegador da Kon Tiki nunca vira uma jangada na sua vida e ignorava admiravelmente a existência de mais de 2.000 embarcações no Atlântico nordestino do Brasil. Agora, com a conversa de Krebs e a minha Jangada, Heyrdahl sabe que elas pescam, normalmente, numa região marítima do mundo e não estão mortas.

Nesse outubro de 1959 realiza-se em Porto Alegre o Campeonato Mundial de Snipes. Dezesseis nações representadas e os nomes famosos, ligados ao esporte, estão olhando terra brasileira.

O nosso conterrâneo Fernando Pedrosa tem atuação eminente no certame. No Campeonato Nacional foi Árbitro Geral, representando a classe no Brasil e no Mundial será Árbitro de Honra, pela Scira brasileira, Fernando Pedrosa é, sabidamente, um entusiasta do Snipes e veterano na participação de campeonatos internacionais na Europa e América. Mas a conversa é outra.

Fernando Pedrosa levou sessenta jangadas, de 25 centímetros cada, miniaturas perfeitas e de acurado acabamento. Uma descrição completa do objeto, identificando as peças jangadeiras e a importância tradicional do barco, milenar e contemporâneo, na economia nordestina e como uma escola de heroísmo dos nossos pescadores.

Fez traduzir em três idiomas a informação (espanhol, francês, inglês) e faz uma distribuição afetuosa entre os 32 concorrentes estrangeiros, salientando a importância etnográfica daquela humilde embarcação que tem vencido dezenas e dezenas de séculos e continua sendo dos nossos dias.

A curiosidade, interesse vivo, surpresa alertada, escreve-me Fernando Pedrosa, têm sido envolventes. A jangadinha está constituindo um dos prêmios mais disputados, mais procurados, mais desejados como recordação e lembrança da disputa náutica.

Cabe ao Fernando Pedrosa esse serviço de extensão “universitária” da nossa jangada. É uma apresentação emocional que honra sua inteligente sensibilidade e ao mesmo tempo projeta aos olhos alheios à nossa cultura tradicional um dos elementos mais típicos, mais legítimos e mais palpitantes de significação étnica.

Não creiam que a oferta de uma Jangada seja depoimento de atraso e de rudimentarismo na indústria haliêutica. A Jangada não traduz um retardamento técnico no trabalho marítimo, mas uma sobrevivência valente no mesmo campo em que sempre atuou, o mar e a pesca, pesca de anzol, paciente e tenaz.

Quando os europeus industrializam, como recordações e “souvenires”, seus barcos, carros, instrumentos de trabalho, bem antigos, bem autênticos e bem conhecidos pelo povo, nós sofremos um complexo de inferioridade e escondemos a Jangada ou o Carro de Boi como índices de culpa, corpo de delito contra a Civilização e a Cultura moderna. Os antiqüíssimos barcos de Portugal, Espanha, Itália, Grécia, estão sendo vendidos em madeira, metal, porcelana, verdadeiras obras de artes. Nós ocultamos a Jangada como se fosse um crime a sua vida admirável. Graças a Deus a Jangada está no brasão do Estado do Rio Grande do Norte há meio século desde 1909. Escrevi um volume inteiro sobre ela e Fernando Pedrosa consagrou-a como um prêmio simbólico, valendo constância e teimosia na heroicidade cotidiana da batalha no mar.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 28 de outubro de 1959

Xumbregar 0

Natalense curioso envia-me afetuosa carta perguntando origem do vocábulo Xumbregar, e decorrentes Xumbregado, etc.

Diz-me ser sinônimo de embriagado, bêbado, e também dado às práticas libidinosas. Essas intimidades que se tornam públicas nos jardins e praças da cidade do Natal logo que a noite cai é Xumbregamento. Rapaz e moça estão Xumbregando.

Natalense curioso quer saber de onde nos veio tal nome.

Veio de um nobre alemão, soldado de fortuna, Armando Frederico von Schomberg, 1615-1690, Conde por nascimento e Duque de Schomberg pelo Rei da Inglaterra, Guilherme III. Antes se batera pela França contra a Espanha e em 1675 era Marechal de França, nomeação de Luís XIV.

Portugal reconquistara sua independência, aclamando o Duque de Bragança como seu soberano natural. D. João IV e Luís XIV mandou Schomberg em 1660 organizar o exército português para enfrentar o espanhol.

Armando Frederico von Schomberg era forte e airoso, vestindo-se com aparato e tendo vida de grão-senhor. Foi o espelho, modelo, árbitro das elegâncias no seu tempo.

Usava um tipo de bigodes que lhe tomou o nome, bigodes de guias voltadas para o alto e em vez de afiadas, tufadas e grossas. A forma de por o chapéu também determinou imitadores. Dizia-se A Chomberga adverbialmente, referindo-se ao uso do Marechal de Schomberg. Esse era Marechal de Campo desde 1652.

Os bigodes à Schomberg vieram até fins do século XVIII ou começo do XIX. E também casinhas que lhe mandara fazer para alojar seus criados foram Casas à Schomberg.

Apenas o português escrevia Chomberga e Xumbrega em vez de Schomberg. O Padre Antonio Vieira escrevia Xumberg.

De março de 1664 a julho de 1666, Pernambuco foi governado por Jerônimo Furtado de Mendonça, grande imitador de Schomberg e apelidado, desde Portugal, Xumbregas. Esse Jerônimo foi preso e deposto pelos pernambucanos que o odiavam.

Nesse tempo houve uma epidemia de bexigas em Olinda e Recife e o povo batizou a peste de Xumbergas em honra ao malavisado governador.

O Conde de Schomberg devia, pelos seus hábitos de boa vida, gostar dos prazeres da mesa e do sexo, como bom soldado e batalhador profissional. Havia de morrer em combate, de espada na mão, em Boyne, na Irlanda, defendendo a coroa do seu amigo Guilherme III.

O vocábulo virá dessa fonte, reminiscências de Armando Frederico von Schomberg que passou a ser Xumbergas e Xumbregas, suas predileções e amavios, com projeção na mania repetidora dos amigos e admiradores fervorosos.

Naturalmente aqueles que hoje Xumbregam jamais recordarão a paternidade para a denominação do ato licencioso e sensual. E menos os amantes do corpo, taça e cálice, pensarão no fidalgo alemão, Marechal de França, Duque pela Inglaterra, organizador do exército de Portugal na campanha da Independência, como padrinho do vocábulo Xumbregado.

Tal é o que posso responder ao Natalense curioso.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 17 de Novembro de 1959

O Rei está nu 0

Conhece a estória da roupa nova do Rei? Conhece certamente. É uma estória que se conta e se imprime há seiscentos anos, desde o livro do Infante Dom Juan Manuel.

O Rei recebe o oferecimento de um tecido tão maravilhoso que somente os homens inteligentes podiam vê-lo.

Os artistas estendiam a peça do brocado aos olhos de toda a corte, Rei, Rainha, Príncipes, Prelados, Cortesões, Clero, Nobreza, Povo.

Não havia uma só criatura que enxergasse o tal tecido inexistente. Todos, desejando provar a inteligência, gabavam as cores, a delicadeza, a graça inimitável do tecido invisível.

Assim foi feita a roupa nova do Rei, peça a peça, traje único que só podia ser visto por quem fosse inteligente.

Como a roupa era de coisa nenhuma, o Rei vestia apenas uma convenção, um resultado da tirania da fama.

Ninguém conseguia ver um fio sequer daquela farda imponderável, mas como todos se julgavam superiores, dotados de poderes de percepção, agudeza mental, atilamento psicológico, conhecimento nato, afirmavam a beleza incomparável de um objeto que não existia.

No dia da festa o Rei vestiu a roupa nova, feita com a fazenda miraculosa. E saiu debaixo de aclamações. Todos os jornais haviam elogiado o tecido mágico. Por toda imensa cidade as opiniões eram solidárias na aclamação daquela obra prima do bom gosto e da paciência técnica.

O Rei saiu, saudando e respondendo às salvas de palmas. Duma janela enfeitada, no meio da família em grande gala, uma criança, acima da convenção, acima da mentira, acima do tabu engolido pelo povo e a nobreza, gritou na força irresistível da verdade imediata, da verdade verificável, da verdade invencível:
- O Rei está nu!

E estava mesmo.

Não quero aplicar o conto de seis séculos às nossas vaidosas afirmativas de poeira humana, erguida pelo breve vento da vida às alturas do firmamento.

Se não é possível dizer que o Rei está nu, tenhamos ao menos a honestidade de não jurar que ele está muito bem vestido…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 16 de dezembro de 1949

Cada terra com seu uso 0

>Outrora dizia-se que cada roca tinha seu fuso e cada terra o uso respectivo.

Hoje quem fia o algodão em casa para que possua fuso e roca?

Raríssimo será quem haja visto uma roca e saiba lembrar como se fiava o fio de algodão.

No velho sertão de 1910 até 1920 ainda encontrei o uso. Todos os fios eram fiados em casa, no trabalho fiel às indústrias domésticas que vinham de época em que as residências isoladas no sertão eram outras tantas autarquias produtoras de utilidades.

A universidade dos objetos industrializados determinou a universidade do uso. Todos usam as mesmas coisas feitas aqui e além nas fábricas.

Os países sem tradição das indústrias domésticas, consolidadas em séculos de costume, perdem a cada dia os elementos distintivos, uniformizando-se, nivelando-se, monotonizando-se.

As concepções modernas da arquitetura tentam dar às cidades da China ou do Pólo as mesmas fisionomias. São os mesmos arranha-céus, explicados com palavreado imponente, mas tendo as finalidades lógicas das utilizações máximas do terreno que se valorizou demasiado.

O resultado é que as cidades estão ficando iguais. Certos aspectos de avenidas, blocos de casas altas de dez e mais andares, não diferem uns dos outros. Olhando uma fotografia onde os arranha-céus sacodem para o alto sua tonelagem de cimento armado, alinhados em fila, em avenidas que se recruzam em desenho retangular, ninguém é capaz de identificar se trata de Istambul ou do Cairo, Ipanema no Rio de Janeiro ou Avenida de Mayo em Buenos Aires, uma Rua de Paris atual ou de Belo Horizonte.

As rocas estão ficando com os mesmos fusos e as terras com a mesma fisionomia.

Restam os usos, os costumes, mores, o folk-way, para defender por algum tempo as dessemelhanças indispensáveis.

Como estamos assistindo aos espetáculos mais furiosos de ódio, ambição e bestialidade de homem contra homem, não passa despercebido a outra luta noutro setor da batalha.

O homem luta desesperadamente contra a Natureza para reduzi-la à unidade morfológica, ao monoteísmo estético e cômodo, princípios indispensáveis ao domínio de um só homem ou de um só povo sobre todos os outros.

Na diversidade dos costumes o domínio de um só é impossível.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 12 de novembro de 1949

Natal, cidade sempre nova 0

A cidade do Natal foi construída lentamente e com os materiais encontrados, em sua maioria, no próprio local. Ainda há casa na Rua do Senhor Santo Antônio com as madeiras cortadas ao redor do sopé da colina onde a cidade se erguera, na Praça André de Albuquerque. Mas as casinhas eram humildes e foram caindo. Na segunda metade do século XVIII alguns edifícios foram feitos com alguma pedra, resistindo melhor. Assim era o prédio do Erário, hoje Delegacia Fiscal, reformadíssima, e outro, de função oficial onde está o Palácio do Governo, derrubado e construído na segunda metade do século XIX.

Como esse material primeiro não era sólido, Natal foi desaparecendo na sua fisionomia seiscentista. Cada século fazia uma cidade nova. Atualmente não existe em toda a cidade uma só casa que date do século XVIII. Todas são posteriores a 1800. Excetuam-se as Igrejas, naturalmente…

Do próprio século XIX apenas os edifícios públicos reformados e consertados vão durando. As casas particulares são raras. De 1801 a 1850 não conheço nem uma sequer. De 1850 em diante lembro apenas duas. Uma na Rua Vigário Bartolomeu, vizinha à Maçonaria, creio que já substituída, e outra na esquina do Ano do Cólera, 1856. Quando a derrubarem para erguer outra moderna, terá desaparecido talvez a mais velha residência térrea da cidade.

No ponto de vista estritamente moderno esse desgastamento rápido foi um benefício. Natal é uma cidade sempre nova, sem casario triste e sujo, sem os sobradões lúgubres que ainda o Recife é obrigado a manter. Cidade pequena e pobre teve a recompensa da sua pequenez e humildade, não dando problemas maiores aos seus futuros administradores.

Os presidentes da Intendência, especialmente Joaquim Manuel Teixeira de Moura, cuidaram muito da arborização. Aí por 1905 plantaram mungubeiras vindas de Fortaleza, no Ceará. Tanto Joaquim Manuel como Fortunato Aranha eram apaixonados pela arborização frondosa, as sombras abrigadoras das ensolarisações ardentes. A Avenida Rio Branco, do Baldo até o Beco do Tecido (Juvino Barreto) quase, era ladeada por mungubeiras maravilhosas, moldura que encantava Dom José, terceiro Bispo de Natal. Meteram o machado em tudo.

A curiosidade maior é que a cidade sem problemas grandes foi alijando também suas belezas, afastando-as dos olhos dos natalenses atuais.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 10 de junho de 1949

O braço de São Francisco Xavier 0

Sou católico no geral e admirador de São Francisco Xavier no particular. Ninguém mais devoto da vida maravilhosa do Apóstolo das Índias nem da imensidade humaníssima do seu catequista.

Leio num jornal espanhol que as festas dedicadas ao grande Santo serão realizadas brevemente no Japão e mesmo o Imperador assistirá sessões solenes. Naturalmente uma delegação espanhola irá ao Japão, solidária com a presença espiritual do evangelizador do Extremo Oriente. Irá uma peregrinação. Organiza-se em Navarra, entusiasticamente, esse grupo de espanhóis que visitará o Japão para assistir mais uma vez a proclamação da glória do santo filho da Espanha conquistadora e cristã.

O sugestivo para mim é que o Marquês de Vivel, presidente da Confederação Católica dos Pais de Família e também dos antigos alunos dos colégios jesuíticos, declarou que a parte mais emocional e vitoriosa era a peregrinação acompanhar o braço de São Francisco Xavier que seria conduzido a Tóquio para dar uma bênção ao mundo.

O santo patrono dos missionários estará representado nesse braço mumificado e seco, erguido, como um ostensório para o santo sinal da cruz na capital do Japão? Será que essa relíquia despertará entusiasmo profundo e catequístico? Creio muito firmemente que não.

A relíquia sempre tem sido cuidadosa e parcamente recomendada pela Igreja. Não confundamos a palavra da Igreja com um movimento qualquer local ou nacional que empolgue padres e mesmo bispos. Nunca a Igreja recomendou a relíquia como uma solução piedosa e para ela tem lições serenas e justas como elementos determinadores da emoção piedosa pela evocação do corpo dos santificados. Jamais como instrumento e sim como elemento de piedade. O braço ressequido de um padre jesuíta, de vida alta, heróica e sobre-humana como suas próprias virtudes, despertará, indiscutivelmente, o movimento íntimo de atenção, associando-se ao pensamento o complexo da vida dedicada em função de Deus e o resto inerte do seu triste revestimento carnal. O corpo é da terra e o carinho com que nós, católicos, o sepultamos e guardamos na terra é porque esperamos nas divinas promessas da ressurreição da carne e ela valerá como invólucro para a flama divina que o animará ao ritmo da trombeta no vale de Josefá. O caso das relíquias é um dos mais delicados na casuística romana. Mais delicado pela sua complexidade.

Não sei se esse braço de São Francisco Xavier valerá a presença viva do seu nome…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 25 de maio de 1949

Para que meu povo se salve 0

O padre dom Luís Sotomaior Garcia, pároco de Encarnação de Arjonilla, Jaen, na Espanha, falava aos seus paroquianos na Matriz, às nove e meia da noite, numa breve pregação durante a bênção. Erguendo a mão, o sacerdote disse: – Doy mi corazon y mi vida para que mi pueblo se salve…

E caiu com um colapso. Morreu imediatamente, aos pés do altar iluminado, olhando o assombro dos fiéis estarrecidos. Deus aceitara o sacrifício em oblação desinteressada e suprema ao povo, ao meu povo, como disse ao morrer, o pároco da Encarnação.

Foi uma coincidência. Não vamos discutir coincidências e acasos. O que não pertence às classes da coincidência e do acaso são as palavras ditas do altar e que se tornam as últimas pronunciadas na terra por esse padre.

Cabe aqui perguntar a diferença entre esse povo que merece a dedicação de uma vida religiosa e a Massa que é sacudida para matar a outra “massa” desarmada, inerte e assombrada.

Pode-se anunciar que a oblação da vida do padre Luís Sotomaior Garcia é um bom sermão na semana preparatória da Semana Santa.

Dificilmente é possível palavras mais eloqüentes e oportunas. Nenhum outro sermão se afastará desse cânon heróico de oferecer a vida para existência do povo. Antes morra um homem que todo um povo pereça, decidiu um sábio de Sinagoga, referindo-se a Jesus Cristo.

Agora outro homem oferece publicamente sua vida, num período apenas literário e que se tornou o epitáfio pessoal do orador oficiante.

Antes todas as sombras violentas de guerra, a formação visível da tempestade furiosa de ódio e de violência bestial, o rebanho humano sofrerá mais uma vez a tortura implacável e a presença da morte oprobiosa e sangrenta. As mãos do padre só possuem uma arma rudimentar: dois pedaços de madeira cruzados na altura do terço na extensão. Sempre que essa arma é trazida para o combate e vivida com Fé, fatalmente vence. Quando não vence é porque o portador não tinha o direito de trazê-la para o debate com os demônios perpétuos de força e de habilidade.

O padre Sotomaior Garcia fez seu elogio, elogio do seu apostolado, e usou a arma invencível e pacífica. E por ela, para que vencesse os fracos contra os fortes e os famintos contra os fartos, opondo a placidez da serenidade ao domínio da brutalidade irracional e cega, ofereceu-se para a morte. E seu povo, todo o seu povo, o povo da sua fé, viverá…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de abril de 1949

A raposa no pomar 0

Essa  estória está no TORAH, numa das edições que conheço. É lição de sabedoria israelita que muito pouca gente, judia e cristã, compreende e segue nos dias rápidos do mundo.

Uma raposa andava procurando almoço quando encontrou um grande e alto muro. Rodeou-o, farejando e deparou um buraco por onde avistou o paraíso do estômago e boca. Árvores de frutos semeando o solo de peças maduras, animais de fácil presa, soltos, passeando, ao alcance de uma dentada técnica, mil coisas para comer e viver, tudo pertinho, sem complicação, perto do dente.

A raposa pulou e repulou, mas descobriu que jamais passaria pela abertura da muralha com o corpo que tinha. Era gorda demais. O buraco era pequeno. Para atravessar seria indispensável emagrecer tanto que possibilitasse a passagem.

Ficou então jejuando, jejuando, língua de fora, ficando magra, para passar pelo muro e engordar do lado de dentro.

Dias depois tentou passar e passou. Estava tão magrinha que a abertura ficara larga para ela.

Entrou então a regalar-se, comendo de tudo, deliciando-se. E também engordando, engordando, rapidamente.

Tempos depois achou que devia livrar-se dos perigos daquele pomar misterioso. Podia o proprietário aparecer com uma boa vara e a surra estaria muito cara para os repastos saboreados.

Tentou repassar para a estrada, mas não conseguiu. Estava muito gorda. Forcejou. Debalde feriu as patas no esforço da escápula. Não podia reganhar a outra paisagem. Só lhe restava o remédio amargo de conseguir o antigo peso pluma, não comer e perder as banhas até o diâmetro antigo.

E ficou jejuando, jejuando, emagrecendo, emagrecendo.

Alcançou o antigo e esquecido peso velho e facilmente passou pela abertura e voltou aos caminhos velhos, com liberdade e fome tradicionais.

Só então é que a Raposa pensou no papel humano que fizera. Para entrar, passara fome. Engordara no pomar, mas perdera todas as vantagens para poder sair. Tivera de passar fome novamente para libertar-se.

Estava com o mesmo peso e a mesma fome anteriores. Não valia o sacrifício tal inutilidade física e tais renúncias morais. Melhor seria a dieta comum, parca e constante, sem dias de jejuns intercalando horas de farturas. A Raposa ficou meio envergonhada. Até aqui é a estória do TORAH. Se houver alguma semelhança é mera coincidência.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 06 de abril de 1949
Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares e Sandro Fortunato