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Em 1957 (Serviço de Documentação do Ministério da Educação) foi publicada uma minha pesquisa etnográfica sobre Jangada, destinada a Societé D’Etudes Historiques Dom Pedro II. Era a primeira tentativa de estudos completo.
Carlos Galvão Krebs conheceu Thor Heyrdahl em S. Paulo e o navegador da Kon Tiki nunca vira uma jangada na sua vida e ignorava admiravelmente a existência de mais de 2.000 embarcações no Atlântico nordestino do Brasil. Agora, com a conversa de Krebs e a minha Jangada, Heyrdahl sabe que elas pescam, normalmente, numa região marítima do mundo e não estão mortas.
Nesse outubro de 1959 realiza-se em Porto Alegre o Campeonato Mundial de Snipes. Dezesseis nações representadas e os nomes famosos, ligados ao esporte, estão olhando terra brasileira.
O nosso conterrâneo Fernando Pedrosa tem atuação eminente no certame. No Campeonato Nacional foi Árbitro Geral, representando a classe no Brasil e no Mundial será Árbitro de Honra, pela Scira brasileira, Fernando Pedrosa é, sabidamente, um entusiasta do Snipes e veterano na participação de campeonatos internacionais na Europa e América. Mas a conversa é outra.
Fernando Pedrosa levou sessenta jangadas, de 25 centímetros cada, miniaturas perfeitas e de acurado acabamento. Uma descrição completa do objeto, identificando as peças jangadeiras e a importância tradicional do barco, milenar e contemporâneo, na economia nordestina e como uma escola de heroísmo dos nossos pescadores.
Fez traduzir em três idiomas a informação (espanhol, francês, inglês) e faz uma distribuição afetuosa entre os 32 concorrentes estrangeiros, salientando a importância etnográfica daquela humilde embarcação que tem vencido dezenas e dezenas de séculos e continua sendo dos nossos dias.
A curiosidade, interesse vivo, surpresa alertada, escreve-me Fernando Pedrosa, têm sido envolventes. A jangadinha está constituindo um dos prêmios mais disputados, mais procurados, mais desejados como recordação e lembrança da disputa náutica.
Cabe ao Fernando Pedrosa esse serviço de extensão “universitária” da nossa jangada. É uma apresentação emocional que honra sua inteligente sensibilidade e ao mesmo tempo projeta aos olhos alheios à nossa cultura tradicional um dos elementos mais típicos, mais legítimos e mais palpitantes de significação étnica.
Não creiam que a oferta de uma Jangada seja depoimento de atraso e de rudimentarismo na indústria haliêutica. A Jangada não traduz um retardamento técnico no trabalho marítimo, mas uma sobrevivência valente no mesmo campo em que sempre atuou, o mar e a pesca, pesca de anzol, paciente e tenaz.
Quando os europeus industrializam, como recordações e “souvenires”, seus barcos, carros, instrumentos de trabalho, bem antigos, bem autênticos e bem conhecidos pelo povo, nós sofremos um complexo de inferioridade e escondemos a Jangada ou o Carro de Boi como índices de culpa, corpo de delito contra a Civilização e a Cultura moderna. Os antiqüíssimos barcos de Portugal, Espanha, Itália, Grécia, estão sendo vendidos em madeira, metal, porcelana, verdadeiras obras de artes. Nós ocultamos a Jangada como se fosse um crime a sua vida admirável. Graças a Deus a Jangada está no brasão do Estado do Rio Grande do Norte há meio século desde 1909. Escrevi um volume inteiro sobre ela e Fernando Pedrosa consagrou-a como um prêmio simbólico, valendo constância e teimosia na heroicidade cotidiana da batalha no mar.
Luís da Câmara Cascudo
A República, 28 de outubro de 1959


